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T e x t o s & T e x t u r a s

Vinde, comei!

peixe-e-pao

Auxílio homilético preparado por Luiz Carlos Ramos para o “Proclamar Libertação 40”

3.° Domingo da Páscoa: 10/04/16
Texto de prédica: João 21.1-19
Demais leituras: Salmo 30; Atos 9.1-6

Luiz Carlos Ramos

Vinde, comei!

Introdução

Os textos indicados para o Terceiro Domingo da Páscoa (Ano C) destacam a manifestação do ressuscitado à comunidade dos discípulos. Em João 21.14 se lê: “E já era esta a terceira vez que Jesus se manifestava aos discípulos, depois de ressuscitado dentre os mortos” (v. 14). Neste terceiro domingo pascal recordamos, portanto, essa que é a terceira manifestação, que é também a definitiva, a que durará para sempre (cf. MATEOS, 1999, p. 895).

Atos 9 narra como Jesus teria vindo subitamente ao encontro de Saulo no caminho de Damasco. Na ocasião, Saulo repete a pergunta que também perpassa o evangelho de João: “Quem és tu, Senhor?” No Evangelho, quando Jesus se manifesta aos discípulos no Lago de Tiberíades (Mar da Galileia), “nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Porque sabiam que era o Senhor” (Jo 21. 12). Mas Saulo ainda não tinha esse discernimento. O terá depois do encontro com o ressuscitado. Os paralelos simbólicos são vários: Saulo cai por terra e se levanta da terra, enquanto Pedro lança-se ao mar e com os discípulos salta em terra (ergue-se da água); Saulo fica três dias sem ver e sem comer, enquanto Pedro trabalha toda a noite (nas trevas) sem pescar nada, mas de manhã come a refeição preparada por Jesus; Saulo que perseguia os do Caminho se reconcilia com Jesus, assim como Pedro, que negara Jesus, tem a oportunidade de reconciliar-se com o seu Senhor.

Basta, do Salmo 30, destacar o verso 5 para estabelecer a conexão com os demais textos: “Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã.” Pode-se relacionar esse canto de esperança com a pesca noturna infrutífera em contraste com a “pesca maravilhosa”, ao amanhecer, bem como com o período de cegueira e abstinência de Saulo depois do qual se seguiria um período de iluminação e discernimento sem precedentes.

Exegese:

Muito já se disse e escreveu sobre o quarto Evangelho. Limitar-nos-emos a destacar-lhe aspectos gerais que ajudam na compreensão da perícope indicada para hoje. João é o mais tardio dos relatos evangélicos, fruto, portanto, de uma interpretação teológica mais elaborada. Por isso mesmo, sua linguagem é repleta de simbolismos, dentre eles, destaco aqui o contraste entre luz e trevas, noite e dia, anoitecer e amanhecer. De modo bem geral, pode-se dividir o Evangelho em duas partes, girando a primeira ao redor da obra e da páscoa do Messias, o chamado “Sexto Dia”(que vai até o cap. 19), e uma segunda, centrada na nova criação e na missão da comunidade, o “Primeiro Dia”(caps. 20 e 21). O texto que nos cabe, está inserido neste último bloco. Alguns consideram o cap. 21 um apêndice ao livro, que parece ter uma conclusão já no cap. 20. Outros sugerem que a conclusão do cap. 20 seria parcial, ao passo que a do capítulo 21 seria uma conclusão geral do evangelho. Outra maneira de entender o cap. 21 é pensar que, tal como há um prólogo (cap. 1), haveria também um epílogo (cap. 21).

Se no cap. 20 o foco é na manifestação do ressuscitado à comunidade fechada dos discípulos, o do cap. 21 trata da missão aberta ao mundo, migrando sua ambientação, portanto, da dimensão interna (comunidade) em direção à externa (mundo), simbolizada aqui pela pesca.

Digno de nota é o contexto eucarístico. Há uma ceia no cenáculo (interna) e uma na praia (externa). A primeira se dá ao anoitecer, a última ao romper da manhã. Também há inúmeros paralelos com a “multiplicação dos pães e peixes” (cap. 6): ambos os sinais se deram no mesmo lugar, junto ao Mar da Galileia (designação judaica) ou Mar de Tiberíades (denominação gentílica do mesmo lago); o número 200 aparece nas duas narrativas, “duzentos denários” e “duzentos côvados” (cap. 21); o termo usado para “peixe” (opsarion) é o mesmo nas duas ocasiões; os cestos sobejantes e as redes repletas a ponto de quase se romperem; a “multiplicação” se dá a partir dos pães e dos peixes ofertados por uma criança, dentre a multidão, e a refeição na praia também é complementada pelos peixes trazidos pelos discípulos/pescadores, aqui chamados por Jesus de crianças/filhos; e, finalmente, a refeição com Jesus, em ambas as ocasiões.

Os discípulos mencionados em 21.2 são em número de sete (não se faz mais alusão aos Doze): Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, os filhos de Zebedeu e mais dois dos seus discípulos. O primeiro nome é o de Simão Pedro, que havia negado Jesus, seguido por Tomé, que também demonstrara incredulidade, mas que já tivera sua oportunidade de reconciliação, num outro “oitavo dia” (cf. cap. 20.26-28). A troca do número 12 pelo 7 parece indicar a ampliação da missão, inicialmente destinada à casa de Israel (12 tribos), para a totalidade dos povos, os gentios: a missão é universal.

“Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Disseram-lhe os outros: Também nós vamos contigo. Saíram, e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam” (21.3). Descreve os discípulo retornando às suas atividades cotidianas. Mas o fato de trabalharem à noite requer atenção. Nicodemos fora ter com Jesus à noite (cap. 3) e ouvira de Jesus “que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus”(vs. 19-21). Por ocasião da cura do cego de nascença, no cap. 9: “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (v. 4). Quando da ressurreição de Lázaro: “Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz” (11.9). E na última ceia, indicando a ação do traidor: “Ele, tendo recebido o bocado, saiu logo. E era noite” (13.30).

O Quarto Evangelho é um convite para a luz de um novo dia: “Mas, ao clarear da madrugada, estava Jesus na praia” (21.4). A manhã revela a presença de Jesus. No entanto, “os discípulos não reconheceram que era ele”, porque ainda permanecem fechados em si mesmos, e insistem em trabalhar sem a vinculação com Jesus.

No v. 5, Jesus pergunta: “Filhos [em gr. paidia = crianças], tendes aí alguma coisa de comer (para acompanhar o pão)?” A designação “crianças”, que lembra o episódio da multiplicação dos pães, quando uma criança pequena (paidarion) ofereceu os cinco pães e os dois peixes,  sugere que os discípulos precisam reaprender a pescar, como meninos (crianças) aprendizes. “Algo de comer”, vincula a missão à eucaristia, comer juntos.

Da terra firme, Jesus dá instrução aos pescadores que estão no mar (que simboliza mundo, alvo da missão), até então em vão esforço: “Lançai a rede à direita do barco e achareis. Assim fizeram e já não podiam puxar a rede, tão grande era a quantidade de peixes” (v. 6). Presume-se que essa era prática usual, que alguém ficasse da encosta, de um lugar elevado, com visão privilegiada, observando a movimentação dos cardumes no lago translúcido. A visão de fora dá uma perspectiva que quem está dentro não tem. Com a orientação precisa do observador (“lançai a rede à direita do barco”), eles alcançam o sucesso na pescaria.

Mas é preciso sensibilidade para se perceber além do prosaico. Assim, “aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor!”  (v. 7 ). A sensibilidade e a experiência amorosa abrem os olhos da fé. Esse é o mesmo discípulo que, diferente de Tomé, creu mesmo sem ter visto o corpo de Jesus (cf. 20.8). Aqui também, é o primeiro a “crer”, mesmo sem reconhecer.

Então, “Simão Pedro, ouvindo que era o Senhor, cingiu-se com sua veste, […] e lançou-se ao mar” (v. 7). “Cingiu-se” lembra o ato de Jesus ao lavar os pés dos discípulos (13.4-5). E “lançou-se ao mar relembra o episódio em que andou sobre as ondas com Jesus (cap. 6).

“Ao saltarem em terra, viram ali umas brasas e, em cima, peixes; e havia também pão” (v. 9). “Brasas”, como na cena da negação de Pedro. “Peixes” (gr. opsariaon) já preparados, prontos para serem comidos, diferentes dos ichthyom (sing. ichthys) que estavam na rede (cf. v. 8). No entanto, no v. 9, “Disse-lhes Jesus: Trazei alguns dos peixes (opsarion) que acabastes de apanhar.” De qualquer forma, a refeição é comum, e todos contribuem trazendo do que têm: Jesus dá pão e peixe, mas é preciso que também os discípulos deem a sua parte.

A alusão aos “cento e cinquenta e três grandes peixes” (v. 11), três grupos de cinquenta mais três, parece ser outra conexão com a multiplicação dos pães, ocasião na qual havia uma multidão de cinco mil homens adultos (grandes) que, segundo Lucas, foram agrupados em grupos de cinquenta. Não obstante a quantidade e o tamanho dos peixes, “a rede não se rompeu”, o mesmo verbo (schizo) de 19.24, que menciona o fato de a túnica de Jesus não ter sido rasgada.

“Disse-lhes Jesus: Vinde, comei” (v. 12) A eucaristia aqui entendida como fonte e ápice da missão, ou ainda mais, a comunhão de mesa situada no próprio coração da missão. Desta vez, “nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu?” Pergunta que já havia sido feita em 1.19, vinda da parte de João Batista, e em 8.25, feita pelos judeus, diante da afirmação de Jesus dizendo “se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados.” Esta seria a terceira vez que a pergunta poderia ser feita, mas já não era necessária. É na refeição comunal que o ressurreto se revela, abrindo olhos, mentes e corações dos discípulos. Podemos considerar esta a versão joanina, da narrativa de Lucas, dos discípulos de Emaús (Lc 24.13.ss).

Veio Jesus, tomou o pão, e lhes deu, e, de igual modo, o peixe (v. 13). O gesto de dar/repartir é a consumação da missão, tal como na “Última Ceia”, e na “multiplicação dos pães”.

“E já era esta a terceira vez que Jesus se manifestava aos discípulos, depois de ressuscitado dentre os mortos.”(v. 14).  A terceira vez é a última e a “definitiva, a que durará para sempre” (op. cit., 1999, p. 895). O número três aparece reiteradas vezes em sentido figurado (2.1,6,9,20; 13.38; 21.11,17,17). Destacamos aqui apenas a relação com a negação de Pedro (13.38): três foram as ocasiões de negação, três são as de reconciliação. Como se verificará a seguir.

“Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? […]. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? […]. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas?” (vv. 15-19).

A reconciliação de Pedro renova o convite ao pastoreio dos cordeirinhos e das ovelhas: “Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas.” (v. 16). Apascentar implica em cuidar, especialmente sair com as ovelhas em busca de alimento (pasto). Primeiro Jesus enfatiza o cuidado dos “cordeirinhos” (v. 15), os menores do rebanho, por último as “ovelhas” (vv. 16-17), os adultos do rebanho. Se Pedro tivesse alguma pretensão de ocupar lugar de primazia como privilégio, aqui a situação se inverte. O primeiro Papa tem como tarefa cuidar primeiro das criancinhas, sem descuidar dos grandes. Mas o dever dos grandes é estar a serviço dos mais humildes.

A perícope termina com uma alusão à morte de Pedro, o apóstolo, e a reiteração do convite ao discipulado. “Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (v. 18). Sugerindo o gênero de sua morte. Há tradições que sugerem que Pedro  teria morrido crucificado. Clemente de Roma (m. 95 d.C.), diz que a sua morte aconteceu no tempo de Nero, por volta do ano 64. Outra tradição posterior diz que os romanos crucificaram Pedro de cabeça para baixo, a pedido do próprio apóstolo que não queria vir a ser comparado com Cristo. Uma outra tradição diz que no período em que devia ser crucificado, encontrou, às portas de Roma, Jesus que lhe perguntou: Quo vadis? (aonde vais?). Porque isso teria acontecido enquanto Pedro estava fugindo de Roma para evitar a morte; o encontro teria mudado a sua decisão e o fez voltar para Roma e enfrentar seu destino.

Pedro já havia feito a sua profissão de fé (vd. 6.68), mas agora chegara a hora de colocar sua fé em prática e à prova: “Depois de assim falar, [Jesus] acrescentou-lhe: Segue-me” (v.19). O Evangelho termina como começa, convidando ao discipulado (cf. 1.43). Seguir é o que fazem as ovelhas em relação ao bom pastor (cap. 10). O apóstolo também é um cordeirinho que segue os caminhos do seu bom pastor, que vai adiante, abrindo, pela eucaristia e a cruz, a comunhão e a paixão, o caminho da ressurreição.

Meditação e imagens para a prédica

O terceiro domingo da páscoa é ocasião para celebrarmos o reencontro com o ressuscitado na comunhão de mesa, na partilha da refeição comunal e na missão comunitária. Refeição para a qual nos achegamos trazendo o fruto do nosso trabalho solidário, para complementar com a nossa participação a refeição que Jesus mesmo nos oferece. Nesse sentido, seria interessante que, para este dia, os celebrantes  não fossem os únicos a oferecerem os elementos eucarísticos, mas que houvesse um processional de ofertório no qual cada uma pessoas presentes pudesse agregar algo à mesa comum. Nesse dia, quem sabe, a eucaristia pudesse ser uma refeição mais generosa, acrescentando ao cálice e ao pão, outros alimentos (frutas, tipos variados de pão, ou outros alimentos que caracterizem o contexto da comunidade).

A participação das crianças merece ser destacada, afinal, na multiplicação, uma criancinha foi a protagonista, e na pesca maravilhosa Jesus se referiu carinhosamente aos seus discípulos como “crianças”.

Esta é, também, uma ocasião oportuna para os gestos de reconciliação. Se foram três as ocasiões nas quais Pedro negou o seu Senhor, foram igualmente três as ocasiões em que o Senhor se apresentou ressurreto, reconciliando consigo a Pedro (a Igreja) e o mundo inteiro.

É, ainda, ocasião de renovação do compromisso com a missão de Deus no mundo, mas de maneira renovada, redesenhada. Não mais desconectada do Ressurreto, não mais na escuridão da noite, mas segundo as orientações que vêm daquEle que, da “Terra Firme”, dá instrução de para onde devemos conduzir nosso barco e onde devemos lançar nossas redes. Assim, renovamos o compromisso com a missão que é universal, que é colocada ao alcance de toda a humanidade, anunciando a aurora do “oitavo dia”, a nova criação, o tempo da vida plena e abundante, o tempo de Deus.

Auxílios litúrgicos

Oração inicial:

Ó Deus, nosso materno Pai,
nossos corações estão cheios de gratidão e louvor,
porque tu nos reuniste novamente
para podermos contemplar-te
no rosto dos nossos queridos irmãos e irmãs,
e sentirmos novamente o teu amor como antes.

Para o momento das preces:

Recebe em teus braços as nossas súplicas
e conforta-nos com o teu amor,
que é mais forte do que a morte.
Recebe em teu colo
a nossa lágrima e a nossa alegria,
e reparte conosco
a vida da tua vida,
para sempre. Amém.

Abertura do ritual eucarístico pode ser:

Amigos e amigas, o amor de Jesus é sem limites, sem idade, é amor por toda a humanidade. Esse amor é tão intenso, que nem a morte pode detê-lo. Por isso ele está vivo em cada um de nós, na lembrança dos seus gestos fraternos de solidariedade e partilha. Hoje repetimos esse gesto com saudade, e o faremos até o último dia. Portanto:

Elevemos nosso coração.

Ao Senhor o elevamos…

Canção para o momento eucarístico:

Peixe & Pão

[Composição coletiva: Flávio Irala,  Liséte Espíndola, Luiz Carlos Ramos e Paulo Roberto Garcia]

Rede trouxe peixe bom
Nosso barco está repleto
Sobre a mesa: peixe e pão
Sobre a mesa: peixe e pão!
Esperança e comunhão

Fonte bibliográfica principais

BARCLAY, William. Juan II. Buenos Aires: Aurora, La, 1974. (Nuevo Testamento comentado).

MATEOS, Juan, S. J. O Evangelho de São João: análise lingüística e comentário exegético. São Paulo: paulinas, 1989.

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