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T e x t o s & T e x t u r a s

A Pregação na Idade Humana

Contribuições da Teologia Latino-Americana

Luiz Carlos Ramos
Agosto de 2025


No presente texto, não me deterei na história da homilética na América Latina, mas procurarei focar nas contribuições da Teologia Latino-Americana para a pregação.

Horizontes da Teologia da Proclamação

Os estudos homiléticos que temos realizado nos permitem descortinar ao menos três horizontes da teologia da proclamação:

  • Horizonte da Idade Média: a pregação convencional (focada no conteúdo dogmático e na estrutura retórica clássica).
  • Horizonte da Idade Mídia: a pregação mediada pelas tecnologias da informação (que privilegia a forma e a performance).
  • Horizonte da Idade Humana: privilegia os sujeitos intercomunicantes na pregação, para além das preocupações com formas e conteúdos, sem descuidar desses elementos.

Propomos redimensionar a compreensão do pregador e da pregadora como sendo mais que “emissores”; os membros da comunidade, como mais que “destinatários”; e a prédica (sermão, homilia), como algo muito maior do que uma “mensagem”. Isso porque, na verdade, o cerne de tudo são as pessoas: a pregadora e o pregador são pessoas, a comunidade é formada por pessoas e a própria mensagem é a Sagrada Pessoa.

A Idade Humana, conquanto já tenha sido inaugurada por Jesus Cristo, ainda não é uma realidade plena, ela está em construção. A pregação na igreja do futuro terá que rever seu modo de ser. Como pregar o Evangelho neste mundo em que as máquinas estão conectadas, mas os humanos estão desintegrados?

A teologia latino-americana nos ajuda a lançar luzes sobre como deve se dar o processo de humanização da pregação. Tomemos como referência o texto de Atos dos Apóstolos 1.8: “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”

Os Círculos Homiléticos da Proclamação

O texto de Atos 1.8 nos apresenta três círculos homiléticos que, em ordem crescente de abrangência, definem o escopo da pregação a partir da teologia latino-americana.

A Pregação a Serviço da Comunidade (Jerusalém)

Por comunidade, queremos nos referir àquele grupo de pessoas que está mais próximo de nós: a nossa família, os nossos vizinhos e as pessoas da nossa comunidade de fé. Como pregar para essa primeira comunidade? Sendo a mensagem (martyria), como indivíduos e como igreja. Os de casa não estão muito dispostos a ouvir nossos discursos, mas estão sempre atentos, observando o que fazemos: a maneira como perseveramos no ensino apostólico, na comunhão, no partir do pão e nas orações.

Uma pastoral e pregação a serviço da comunidade de fé implica, ainda, na escuta atenta e ativa das vozes dos membros da comunidade local, especialmente daqueles e daquelas que têm sido calados, marginalizados, excluídos, invisibilizados. Antes de discursar para os outros, precisamos ouvir atenta, respeitosa e ativamente o que o nosso próprio povo tem a dizer. Aí, sim, poderemos pensar em elaborar nossas prédicas como tentativa de oferecer respostas às perguntas pertinentes, e muitas vezes impertinentes, levantadas pela própria comunidade. É dessa forma que a pregação será na prática uma vivência dialógica e dialogal.

Tendo pregado para os “de casa”, com a vida e com atos, mais que com palavras, podemos ampliar o círculo homilético.

A Pregação a Serviço do Povo (Judeia e Samaria)

Segundo Jesus, o próximo é o “samaritano” (Lucas 10.25-37). Os samaritanos, nos tempos de Jesus, eram os vizinhos desprezíveis e desprezados que os judeus tinham. E Jesus diz que a essência dos ensinamentos sagrados é que nós devemos amar esses “desprezíveis” samaritanos: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria…” (Atos 1.8).

A pregação em “Samaria”, portanto, consiste em tratar o próximo como nós tratamos a nós mesmos e os da nossa casa. Tratar os de fora com o mesmo respeito e consideração que nós tratamos os irmãos e as irmãs da comunidade de fé. Dizendo de outra forma, fazendo com os de Samaria o mesmo que faríamos na comunidade de Jerusalém, a saber, perseverar (cf. At 2.42-47):

  • No ensino apostólico: compartilhando a sabedoria do Evangelho do amor incondicional.
  • Na comunhão: superando as barreiras e as diferenças, e promovendo o respeito mútuo.
  • No partir do pão: socorrendo o próximo nas suas necessidades, estendendo-lhe mãos e braços solidários.
  • Nas orações: respeitando a diversidade religiosa e cultivando uma espiritualidade ecumênica.

A exemplo de Jesus, devemos assumir que o Espírito nos designou para evangelizar os pobres, anunciar a libertação aos cativos, restaurar a vista aos cegos, libertar os oprimidos, proclamar o ano da graça do Senhor. E essa missão não está restrita à Jerusalém.

Tendo pregado na Judeia e na Samaria, podemos ampliar ainda mais o círculo homilético.

A Pregação a Serviço da Humanidade (Até os Confins da Terra)

Isso significa que não há rincão do planeta que esteja fora do alcance do amor de Deus, que é sem limites, sem fronteiras. Isso significa ainda que, para o cristão, as fronteiras também não existem. A pregação cristã nunca poderá ser xenófoba, nacionalista, chauvinista, bairrista. Ao contrário, todas as pessoas que se dizem cristãs devem assumir a cidadania do Reino, que é o Novo Mundo de Deus.

Para alcançar os confins da terra, os recursos tecnológicos serão muito úteis, fundamentais até. E aqui também precisamos insistir no trabalho colaborativo. Pregar através da mídia não é dominar as máquinas e as tecnologias. É também, mas, mais do que isso, é sermos capazes de mobilizar os agentes humanos por trás das máquinas e das tecnologias.

Podemos sintetizar dizendo que a pregação humana é uma Pregação a serviço da Vida.

A Pregação a Serviço da Vida

A pregação a serviço da vida está claramente contemplada no plano de ação de Jesus, anunciado no início do seu ministério (Lucas 4.18-19) e retomado no discurso escatológico que descreve os critérios que o Juiz-Pastor usará no Grande Julgamento (Mateus 25.35-36):

  • Tive fome, e me destes de comer;
  • tive sede, e me destes de beber;
  • era forasteiro, e me hospedastes;
  • estava nu, e me vestistes;
  • enfermo, e me visitastes;
  • preso, e fostes ver-me.

Eis o programa de governo do Novo Mundo de Deus que prioriza a vida plena: alimentação digna, saneamento básico, moradia, abrigo e vestuário, universalizada da saúde, justiça para todos.

Dar Voz, Visibilidade e Encarnar os Proscritos

A pregação a serviço da vida, portanto, manifesta-se em atitudes concretas que dão voz, visibilidade e encarnam os proscritos.

Dar voz aos sem-voz: O pregador e a pregadora são a voz que clama num mundo árido e inóspito (cf. Isaías 40.3-5 e João 1.23). E, ao fazer soar a sua voz, eles o fazem em nome dos muitos silenciados e emudecidos que são sistematicamente calados pelos poderes pecaminosos que oprimem e reprimem a vida. A voz do pregador e da pregadora não lhes pertence. Essa voz, o pregador e a pregadora a tomam emprestada dos sem-voz.

Dar visibilidade aos invisíveis: Além de dar voz, a pregação também se manifesta em dar visibilidade aos invisíveis da sociedade. A rigor, eles só são invisíveis porque foram invisibilizados. Geralmente, esses invisibilizados são as “minorias sociais” que, em geral, são a maioria, numericamente falando. O pregador e a pregadora deverão se lembrar disso toda vez que subirem a um púlpito, lugar de tanta visibilidade. Quando subimos ao púlpito, levamos conosco uma multidão de testemunhas e mártires do Evangelho de Jesus Cristo.

Encarnar os proscritos: Por fim, a pregação humana busca encarnar os proscritos. Proscrito é quem foi compulsoriamente compelido a viver nas sombras, na clandestinidade. O termo também designa quem foi censurado e proibido de se manifestar, frequentar ou viver em algum lugar. Na maioria das situações, os pregadores e as pregadoras costumam gozar de privilégios, são bem recebidos, são convidados a usar da palavra, a ocupar lugares de destaque e assim por diante. São, portanto, o oposto dos proscritos. Não podemos ignorar isso quando assumimos posições de privilégio quer seja no púlpito, quer seja nas telas, telinhas e telões.

Quem são os sem-voz, inviabilizados e proscritos? Jesus responde: Sou eu!

 Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. (Mateus 15.40)

Jesus não tem outros olhos, mãos, pés, braços, ouvidos e boca que não sejam os nossos. De que maneira Jesus está presente, visível e palpável no mundo? Por nosso intermédio, nas pessoas dos proscritos, mas também na pessoa da pregadora e do pregador que encarnam os mais pequeninos.

Ao encarnar a missão do Cristo, encarnamos igualmente o lugar dos proscritos, mas não para mantê-los na condição de exilados, desterrados, excluídos, degradados, mas para restaurá-los à condição plena de cidadãs e cidadãos do Reino de Deus.

Ao assomarmos o púlpito, o fazemos como representantes de todos aqueles e aquelas que foram expulsos dos seus lugares, perderam sua terra e seu teto: os migrantes, os refugiados, os desterrados, os desabrigados.

Não, nós não pregamos para eles, nós pregamos com eles.

Finalizando

Haveria muito mais a ser dito a respeito das luzes lançadas sobre a pregação pela teologia latino-americana, tal como a prática de uma prédica partilhada e solidária, interdisciplinar, multimídia, interativa e inter-relacional, ecológica… Mas o tempo não nos permite, e teremos que deixar essa conversa para uma outra ocasião.


Texto preparado originalmente para Seminário On-line de Homilética | Painel Pregação no Contexto Latino-Americano | EST – Societas Homilética | 18-20 AGO 2025

Fonte da imagem: https://ihu.unisinos.br/categorias/607772-o-caminho-estreito-de-francisco-uma-teologia-da-libertacao-sem-marxismo-entrevista-com-massimo-borghesi

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