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T e x t o s & T e x t u r a s

Uma folha verde e feliz

Phyllis Reily (6.01.1927 – 5.12.2017)

Salmo 90.1-6, 12-17

Senhor, tu tens sido o nosso refúgio,
de geração em geração.

Antes que os montes nascessem
e se formassem a terra e o mundo,
de eternidade a eternidade, tu és Deus.

Tu reduzes o homem ao pó
e dizes: Tornai, filhos dos homens.

Pois mil anos, aos teus olhos,
são como o dia de ontem que se foi
e como a vigília da noite.

Tu os arrastas na torrente, são como um sono,
como a relva que floresce de madrugada;
de madrugada, viceja e floresce;
à tarde, murcha e seca.

[…]

Ensina-nos a contar os nossos dias,
para que alcancemos coração sábio.

Volta-te, SENHOR! Até quando?
Tem compaixão dos teus servos.

Sacia-nos de manhã com a tua benignidade,
para que cantemos de júbilo
e nos alegremos todos os nossos dias.

Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido,
por tantos anos quantos suportamos a adversidade.

Aos teus servos apareçam as tuas obras,
e a seus filhos, a tua glória.

Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus;
confirma sobre nós as obras das nossas mãos,
sim, confirma a obra das nossas mãos.

Phyllis nasceu em pleno inverno no dia de Epifania, também chamado Dia dos Santos Reis.

Epifania é a compreensão súbita de uma verdade eterna ou, em outras palavras, é um jeito especial que Deus usa para esparramar ao redor a sua resplandece luz.

Nesse dia a igreja recorda a visita dos reis magos, que vieram de terras longínquas, para presentear e brincar com um menininho pobre chamado Jesus.

Ao que parece, essa sincronização astral selou o destino daquele bebezinho que recebeu um nome cujo significado era “folha verde”, mas que aqui no Brasil passou a significar “feliz”.

Como os reis magos, essa menina feliz também veio de terras distantes para trazer presentes e brincar com o menino Jesus que ela encontrou em cada criança brasileira, especialmente entre as mais empobrecidas.

Os brinquedos, ela mesma os fazia com criatividade e Arte.

E sua arte tem origem curiosa:

Mãe, avó, bisavô…

Inclusive seu marido, Professor Reily era um tipo especial de costureiro. Ele costurava a História. Costurou a História da Igreja, a História do Metodismo no Brasil, costurou até a história do Ministério Feminino.

E a nossa menina feliz se especializou em costurar os dias, os meses os anos.

O resultado foi uma coleção admirável de arte em forma de calendários. Esse foi o seu jeito de orar:

Ó Eterno, ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos corações sábios.

Esse coração se tornava cada vez mais sábio e bom.

Mas até os corações sábios e bons estão sujeitos às contingências e fragilidades humanas. Chega uma hora em que os corações sábios e bons também precisam descansar.

Mesmo os que nasceram cheios de esperança, como folha verde em pleno inverno.
Nossa menina feliz escolheu um dia de primavera para encerrar a sua contagem.

Sabendo que o verão está pra chegar e que, até lá, outros haverão de dar continuidade à sua costura.

Aqui no Brasil, é verão no Dia de Reis. E, no próximo dia 6 de janeiro, Phyllis completaria 91 anos.

Não sei para vocês, mas para mim, nunca mais essa data será a mesma. Daqui pra frente ela terá sempre o formato de um coração sábio e generoso.

Concluo com as palavras finais da Phyllis escritas no livro alusivo aos seus 80 anos.

Nele, ela dizia como queria viver seus próximos dias, e assim ela fez:

Eu penso nos muitos anos que tenho vivido no Brasil, desde 1950, o planejamento e a preparação antes da viagem, o sentimento de temor do desconhecido, uma nova língua a aprender, as dificuldades e inconveniências… Porém, eu me lembro de como a participação abriu portas e oportunidades para mais educação, novas experiências com pessoas diferentes que têm enriquecido a minha vida, o apoio de amigos e da minha família, e, hoje, estou contente por ter nascido no Dia dos Reis.

Então, eu quero fazer a minha jornada na companhia dos reis aprendendo a desfazer-me daquilo que é supérfluo. Quero fixar meus olhos na luz da estrela que é Jesus.

Quero continuar nessa caminhada onde posso aprender a modificar a minha maneira de pensar. Quero ter dúvidas para poder levantar novas perguntas e enxergar novos horizontes.

Não quero ficar trancada dentro de casa, atrás de portas e muros que criam barreiras para o meu próximo. Quero aprender a viver a solidariedade com as pessoas que encontro pelo caminho. Pois sei que a comunhão me devolverá à estrada com maior vigor e espiritualidade. É nesse caminhar que descubro o verdadeiro sentido de viver as boas novas de Cristo: um processo de compartilhar com outros e crescer na graça.

Que Deus nos ajude a honrarmos a sua memória!

Rev. Luiz Carlos Ramos 

Ofício de despedida, consolação e alento de Phyllis Reily,
Cemitério dos Amarais, Campinas, SP,
aos 6 de dezembro de 2017.

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