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T e x t o s & T e x t u r a s

A-DEUS BETINHO

(Homenagem póstuma proferida na cerimônia de ação degraças in memoriam
de Hebert José de Souza, falecido aos 9 de agosto de 1997)

Betinho (03.11.1935 - 09.08.1997)

“Não vá na minha frente porque, talvez, eu não te siga.
Não vá atrás de mim porque, talvez, eu não te guie.
Caminha a meu lado e sê meu companheiro.”
(Lorca)

O companheiro

Explicam os dicionários etimológicos que a palavra companheiro vem do latim (com+panes). Companheiro, portanto, é aquele com quem a gente reparte o pão. Assim foi a vida do Betinho: marcada pela partilha do pão com arroz e feijão e da vida com sonho e paixão. Hoje, reverenciamos a sua memória porque, há uma semana, perdemos esse companheiro.

O sofredor

Sua vida não foi fácil, nem sempre seu esforço reconhecido. Não poucas vezes recebeu em troca do seu compromisso com a justiça, a injustiça dos sem compromissos. Exilado, perseguido e humilhado, retribuiu com a solidariedade, a bondade e o serviço.

• Falava dos mais belos valores da humanidade, mas não havia nele formosura alguma;

• lutava para amenizar o sofrimento humano, mas ele mesmo foi um servo sofredor;

• compadecia-se da dor das gentes nas favelas, mas foi homem de dores, ele mesmo, entre elas;

• tendo sofrido com — e como — os que sofrem, sabia o que é padecer… e padeceu…

O sonhador

Mas, como o menino da estória evangélica da multiplicação dos pães, Betinho ofereceu os seus parcos recursos para ajudar a alimentar a multidão. E esta é a imagem que fica: a do menino levado, maroto que, com uns peixinhos e poucos pães, fez desta uma nação menos faminta.

Haverá, certamente, aqueles que pretenderão canonizá-lo. Oxalá não consigam. Porque senão, dirão que ele fez o que fez porque era santo e não porque era homem apaixonado de carne e osso, cujo sangue tem a mesma cor do que pulsa em nossas veias.

Os ingredientes que ele possuía para fazer tudo o que fez, nós os temos, todos, em nossos próprios corpos. Betinho nos ensinou a receita para, combinando esses ingredientes, fazermos um enorme pão e servi-lo na grande refeição da solidariedade humana.

No início desta fala, eu dizia que perdemos um companheiro, mas corrijo em tempo dizendo que o Betinho nos fez, isto sim, renascer mais companheiros.

A-Deus

Betinho, menino sonhador, um dia a gente se encontra. Vamos sentar numa mesa modesta, tomar café com leite, dividir um pão com manteiga e num dedo de prosa, que pode avançar eternidade adentro, revelar uns aos outros os sonhos da noite anterior.

Com admiração e orgulho de ser-lhe companheiro, A-DEUS.

Luiz Carlos Ramos
15.8.97

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