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T e x t o s & T e x t u r a s

O antídoto da serpente

Ou: A serpente, o filho único e a luz

João 3.14-21 (4º. Domingo da Quaresma, Ano B)

14 E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, 15   para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.   16   Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.  17   Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.  18   Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.  19   O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.  20   Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras. 21   Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.

Introdução

Desde segunda-feira desta semana está em andamento, na Áustria, o júri popular que julga Josef Fritzl. Foram 24 anos de uma vida de trevas, na qual Fritzl teria cometido crimes bárbaros contra sua própria filha, Elisabeth: escravidão, estupro, incesto, e outros atos inomináveis. Tudo isso no refúgio da penumbra de um porão obscuro. Somente em 2008 essa história ignominiosa viu a luz do dia pela primeira vez. Quantas outras elisabethes haverá nos subterrâneos e submundos da humanidade (ou deveríamos dizer: da “desumanidade”)?

O Evangelho que acabamos de ler talvez nos ajude a percorre esse vale de sombra e de morte pelo qual, inexoravelmente, temos tido que atravessar.

João é o Evangelho da luz: “No princípio”, lemos a respeito do testemunho da luz que, “vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (1.9); e, no final, a narrativa da Páscoa definitiva, testemunhada por uma mulher que, na madrugada de um domingo primaveril palestino, “sendo ainda escuro” (20.1), vê as trevas da morte sendo definitivamente vencidas pela luz plena da ressurreição!

É disto que trata o Evangelho que lemos hoje: A graça e o amor de Deus salva o cosmo da destruição, e nos chama para andarmos na luz e praticarmos a verdade.

Podemos subdividir a perícope de João 3.14 a 21 em três subunidades: a primeira retoma o controvertido episódio veterotestamentário da serpente de bronze levantada por Moisés no deserto; a segunda salienta o transbordamento do amor de Deus que envia seu Filho único para salvar o cosmo; e, por último, conclui com o apelo à prática da verdade, realizadas às claras, obras da luz, porque feitas em Deus.

Meditemos a esse respeito, parte por parte…

O antídoto da serpente

O versículo 14 faz alusão ao episódio narrado em Números 21, segundo o qual o povo é punido com terríveis ataques de serpentes venenosas, por causa da sua murmuração contra Moisés e contra Deus: “Por que nos fizestes subir do Egito”, reclamavam, “para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil [referindo-se ao maná]” (v. 5).

Como consequência, Deus mandou “serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel” (v. 6). Quando as pessoas se deram conta de que, caso persistissem nessa postura rancorosa, todos pereceriam, suplicaram para que Moisés intercedesse por eles.

Desconcertantemente, a solução divina, dada para a ocasião, foi a seguinte: “Disse o SENHOR a Moisés: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e será que todo mordido que a mirar viverá “ (v. 8).

Confesso a vocês a minha dificuldade para entender porque, dentre tantas alternativas possíveis, Deus escolheu essa; que mais se aproxima das crendices e simpatias supersticiosas, e que lembra os sortilégios e encantamentos praticados por feiticeiros, bruxos e encantadores.

Certamente haverá aqui relações com os serafins: as serpentes incandescentes ou abrasadoras, mencionadas em Isaías 6. Pode ainda ter alguma ligação com o terrível basilisco, um tipo de serpente mitológica, tão peçonhenta, que era capaz de matar apenas com seu  hálito, ou com o seu olhar.

Ora, o método utilizado pelos antigos pensadores para interpretar as narrativas mitológicas era a alegoria. Assim sendo, arriscarei aqui um palpite: As serpentes são seres rastejantes, seu lugar é nas tocas (porões?) e no rés do chão; em contrapartida Deus manda Moisés colocar a serpente de bronze no alto. Uma pessoa picada por uma serpente olha imediatamente para baixo e cai por terra; em contrapartida Deus recomenda que a pessoa ferida levante a cabeça e olhe para cima. O veneno das serpentes infecta a carne; ora, nós hoje sabemos que a cura para isso seria um antídoto obtido a partir do veneno da própria serpente: o soro antiofídico. Antecipando-se à medicina moderna, para combater a serpente da morte, que rasteja para matar, Deus oferece a serpente da vida, que se ergue para salvar.

“Erguer” ou “levantar”, curiosamente, é o mesmo verbo empregado no Novo Testamento para descrever a crucificação e a ressurreição de Jesus: “assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (vs. 14-15); e  “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei (lit.: ‘o erguerei’) […]. Quando, pois, Jesus ressuscitou [lit.: ‘foi erguido’] dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus”.

Para nos salvar da destruição, Deus nos desafia a erguer os olhos (a ressuscitar o olhar!) e encontrar na morte de Jesus, isto é, na própria cruz, o antídoto para o ódio, para as trevas e para a destruição do cosmo.

O amor que transborda no Filho

Sim, “porque Deus amou ao mundo [lit.: ‘o cosmo’, o mesmo mencionado no Salmo 19, também lido hoje] de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça [lit.: ‘não seja destruído’], mas tenha a vida eterna” (v. 16).

Emprestando as palavras de um talentoso poeta da MPB: o amor de Deus pela sua criação é tão grande que “não cabe em si”, transborda, “revela-se”, e, “por ser amor, invade e fim”.

E Esta é a segunda parte da nossa reflexão…

Por amor, o Eterno invadiu o efêmero; o Infinito, o finito; o Definitivo, o contingencial. Por amor, Deus se fez gente; o Imortal com(-)viveu com os mortais, o Intangível abraçou o humano, beijou as crianças, estendeu a mão aos enfermos, sorriu com os pobres. Pela face daquEle que, outrora, sequer poderia ser mirado, rolam lágrimas de compaixão pelos que sofrem, que sentem as dores deste mundo, que têm fome e sede de justiça. O olhar daquEle que, segundo os catecismos, era invisível e não tinha corpo como os homens, agora cruza amoroso o olhar até dos que ainda não sabem amar.

Esse amor é tão grande, que não precisa de mais nada: nem de obras, nem de méritos. É um amor tamanho que salva pecadores e perdoa até os que não amam, porque estes “não sabem o que fazem” (Lc 23.24).

O amor de Deus é maior do que o meu pecado, do que o seu pecado, e é maior ainda do que o pecado de todo o cosmo. Por isso, Deus, sem a nossa participação, nos salva, mas quer, com a nossa participação, salvar toda a criação (porque o Amor gosta de companhia).

As obras da luz feitas em Deus

É particularmente notável que a perícope conclua reacendendo o tema da luz: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.” (v. 21).

E esta é a parte final da nossa meditação…

Ao longo do percurso do Evangelho, João retoma, sistemática e dialeticamente, “luz/trevas”, sempre com a conotação de que o que se faz à luz do dia é de Deus e o que acontece na calada da noite, na penumbra e nas densas trevas está em oposição a Deus.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (1.5); ● “que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más”(3.19); ● “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (8.12); ● “Ainda por um pouco a luz está convosco. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; e quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (12.35); ● “Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (12.46).

Por derivação, opõem-se, no evangelho, a Noite e o Dia:

“Este [Nicodemos], de noite, foi ter com Jesus (3.2); ● “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (9.4); ● “[…] mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz” (11.10); ● “Ele [Judas], tendo recebido o bocado, saiu logo. E era noite” (13.30); ● “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revolvida” (29.1); ● “Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Disseram-lhe os outros: Também nós vamos contigo. Saíram, e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam. Mas, ao clarear da madrugada, estava Jesus na praia” (2.3-4).

Foi o Prof. Paulo Garcia quem chamou a nossa atenção num dos estudos bíblicos que fazemos toda quarta-feira à tarde com a Equipe de Liturgia e Arte da Fateo —, para o fato de que, no Evangelho de João, aqueles que agem na calada da noite, tal como Nicodemos e José de Arimateia (os chamados criptocristãos), ainda que não estejam tecnicamente errados, o máximo que conseguem é um cadáver (são eles que sepultam o Mestre). Mas quem sai à luz do dia e pratica a verdade haverá de encontrar-se com o Cristo Ressurreto, já “ao clarear da madrugada” (2.4).

Conclusão

Irmãs e irmãos, a mensagem de Deus para nós neste dia é um convite a levantarmos a cabeça e a erguermos os olhos para contemplarmos, na mensagem da cruz e da ressurreição, o antídoto para o rancor e o ódio que envenenam nossas almas.

É também, uma mensagem apaixonada, que nos contagia e nos faz transbordar desse mesmo amor de Deus, que perdoa o próximo e restaura a criação.

É, ainda, um desafio a andarmos na luz. A que nos recusemos, terminantemente, a nos associar com aqueles e aquelas que agem nas sombras dos “porões”, e na calada da noite; aqueles que fazem acordos de alcova nos quais só alguns se dão bem; aqueles que, como Caim, apunhalam seus irmãos pelas costas, ou como Judas, conspiram contra seus mestres; aqueles que, a portas fechadas e em seções secretas, sentenciam seus pares à morte, seja ela biológica, social, emocional, profissional ou econômica…

A esses não precisamos julgar, pelo contrário, eles já estão condenados por seu próprio comportamento. Quanto a nós, não devemos temer o dia, pois “quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus” (v. 21).

Não nos esqueçamos, imãs e irmãos caríssimos: quem sai à luz do dia e pratica a verdade haverá de encontrar-se com o Cristo Ressurreto, já “ao clarear da madrugada” (2.4). Amém!

  

Luiz Carlos Ramos
Quaresma, 2009

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