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T e x t o s & T e x t u r a s

Reforma Protestante: um olhar metodista

 

Luiz Carlos Ramos

Doutor em Ciências da Religião, 
Pastor na Igreja Metodista em Pirassununga, 
Professor na Universidade São Francisco

Fonte da ilustração: https://goo.gl/images/Vsm8PM

Já se passaram mais de 2 mil anos desde o nascimento de Jesus Cristo e mais de 500 desde a Reforma Protestante, e podemos afirmar categoricamente que o povo em geral ainda não conseguiu distinguir a Lei do Evangelho, o Mérito da Graça, a tentativa de apropriação da Vida Eterna por esforço da Salvação pela fé, o Deus implacável do Deus misericordioso, a religião do Ódio da religião do Amor…

Ora, Jesus Cristo, seus mais leais discípulos, bem como muitos Reformadores, deram sua vida para que o povo pudesse experimentar o Evangelho, a Graça, a Misericórdia e o Amor de Deus.

Em 2017 comemorou-se em todo o mundo, os 500 anos da Reforma Protestante, e muitas denominações religiosas advogaram para si a designação “evangélicas” e “protestantes”, julgando-se herdeiras desse movimento.

A rigor, contudo, “evangélico” só seria aplicável àquilo que se conforma com o Evangelho, e “protestante”, o que se coaduna com os princípios fundamentais da Reforma. O que, a princípio, parece obviedade pueril, na prática se mostra em flagrante contradição.

Vamos por partes: a Lei é bíblica? Assim como as obras e o Deus-Juiz iracundo? Sim! Mas é aqui que entra a hermenêutica de Jesus Cristo, quando diz, no Sermão da Montanha: 

“Ouviste o que foi dito… eu porém vos digo.”
(Mt 5)

Conclusão hermenêutica: Nem tudo que está na Bíblia é “Evangelho”. Evangelho é o “novo” jeito de ler a Bíblia e a Vida através dos olhos mansos de Jesus.

A Reforma e a questão da Bíblia

Claro que foram inúmeros os fatores sociais, econômicos, políticos que deram o ensejo para a Reforma Protestante tomasse a dimensão que tomou. Mas para nós, aqui, interessa particularmente os elementos bíblico-teológicos que fundamentaram essa grande transformação pela qual a Igreja passou.

Assim, o tema hermenêutico é determinante para entendermos a Reforma Protestante do ponto de vista teológico. Temos que nos lembrar de que o povo em geral não tinha acesso à Bíblia, como literatura. Seu conhecimento dos Evangelhos vinha mais dos representações artísticas em exposição nas igrejas e catedrais (verdadeiros museus sacros) do que das pregações dominicais e nem um pouco da leitura direta dos textos sagrados.

Lutero, ao afirmar que a

“Bíblia é a única autoridade na igreja”
(DREHER, 2013, p. 248)

colocou em cheque a hierarquia vigente que determinava que o Magistério era essa autoridade. O Magistério se encarregava de dar as coordenadas que condicionavam a interpretação das Escrituras.

“O evangelho é palavra viva, dirigida ao ser humano, e quer provocar fé”
(DREHER, 2013, p. 248).

Para Lutero, o centro das escrituras é Jesus, e Jesus é o próprio Verbo divino encarnado, o único conteúdo da Escritura enquanto palavra de Deus.

A igreja só pode apontar para a Escritura e submeter-se a ela. Mas não devemos perder de vista que a própria Escritura se submete a Jesus Cristo, o Verbo divino.

Enfim, essa questão hermenêutica forneceu a chave para que se possa triar, dentre as páginas das Escrituras, o “Evangelho”, isto é, discernir aquilo que se submete a Cristo daquilo que se contrapõe a ele.

Dito isso, se pode compreender o porquê do esforço para disponibilizar a Bíblia para a leitura direta do povo. Claro que, para isso, ela precisava estar em linguagem acessível. Lembremo-nos de que até então, os poucos exemplares da Bíblia estavam disponíveis apenas nas línguas originais (hebraico, aramaico e grego) e em sua famosa versão para o latim (a Vulgata). Mesmo assim, esses exemplares eram raramente encontrados, e quanto encontrados, eram caríssimos. Somente igrejas ou indivíduos muito ricos possuíam esses textos.

Lutero, biblista competente que era, se aplicou a traduzir a Bíblia para a língua do seu povo, o alemão. Depois dele outras versões foram preparadas para o Inglês, o Francês, o Espanhol, o Português, e assim por diante.

De posse das Sagradas Escrituras, a única autoridade reconhecida na igreja, muitos indivíduos e grupos, desviando-se da diretriz hermenêutica de Lutero, passaram a arriscar as suas próprias e mais díspares interpretações. 

O divisionismo que daí se sucedeu foi espantoso.

Hoje somos fruto dessa hermenêutica fragmentada e fragmentadora.

Os movimentos reformadores autênticos sempre foram uma tentativa de volta à essência do Evangelho, ao passo que os divisionismos foram sempre resultado de tentativas de “inovações”, que recebiam apelidos piedosos, tais como “avivamento” e “renovação”.

Por outro lado, como fruto maravilhoso da Reforma protestante do século XVI, podemos ver a Bíblia ao alcance de qualquer pessoa letrada que tenha acesso a uma livraria ou à Internet.

No entanto, a chave que possibilita uma leitura cristã dessa literatura sagrada não está tão disponível. Dessa incontável multidão que lê diária ou quase diariamente a Bíblia, poucos parecem conhecer o Verbo de Deus. Leem as palavras mas nada sabem da Palavra. Porque não submetem sua leitura ao crivo, à peneira, ao filtro, que é Jesus.

É por isso que tantos continuam citando a Bíblia para defender práticas absolutamente contrárias aos princípios do reino anunciados por Cristo: sectarismo, racismo, discriminação da mulher, da criança, dos deficientes, dos pobres, dos diferentes… 

Se lermos a Bíblia com os olhos de Jesus, nossas conclusões seriam muito diferentes das que vemos sendo anunciadas em nossos dias, não somente pelas igrejas novas, mas também dentro da nossa família metodista.

As questões Teológicas

No campo teológico (o estudo da primeira pessoa da Trindade), houve um contraste entre a ideia medieval de Deus, distante e ameaçador, e o Deus próximo e amoroso. Desloca-se da cosmovisão da Lei (obras) para a cosmovisão do Evangelho (Graça).

Mesmo assim, se para Lutero o Deus verdadeiro é o Deus-pastor, misericordioso, para Calvino, Deus continua sendo um monarca soberano e implacável que, do alto da sua majestade, determina o destino de cada indivíduo. De alguma forma, perdura o embate entre a justiça e a misericórdia.

No que diz respeito à cristologia (teologia da segunda pessoa da Trindade): dá-se importante salto em direção à discussão sobre Jesus histórico e do Cristo da fé. Lutero acrescentou “à teologia da glória a teologia da cruz” (DREHER, 2013, p. 247). Jesus é o ser visível de Deus que se volta para a natureza. A humanidade de Deus, sua fraqueza, se revelam plenamente na loucura na cruz. “A cruz de Cristo “é o lugar onde Deus quer ser encontrado” (DREHER, 2013, p. 247). Trata-se de um paradoxo que não pode ser superado pela racionalidade. “Daí que a teologia é falar do paradoxo da cruz.” (DREHER, 2013, p. 247)

Quanto à Pneumatologia (teologia da terceira pessoa da Trindade), toma-se consciência de que a ideia do Espírito Santo estava sendo nublada pela veneração da Virgem Maria e dos santos. Com isso, retoma-se a hierarquia trinitária original.

No campo da eclesiologia (teologia da igreja), retoma-se a concepção evangélica de que a igreja não se restringe ao clero, mas abrange todos os fiéis. A Igreja é o povo de Deus a quem a Palavra é fielmente pregada e os sacramentos são corretamente ministrados.

A Soteriologia (teologia da salvação) da Reforma não poderia fazer diferente, a não ser afirmar que a salvação é iniciativa amorosa do Deus misericordioso que pode ser alcançada unicamente pela graça mediante a fé, e jamais pelas obras ou por qualquer mérito humano.

Dentre os demais temas teológicos, especialmente no que diz respeito à teologia pastoral (ou à Missiologia) —tais como educação cristã, comunhão, diaconia, liturgia— inúmeras e determinantes mudanças ocorreram. O púlpito adquiriu uma conotação professoral a serviço da instrução do povo sobre as verdades do Evangelho. O papel do líder religioso (real, sacerdotal e profético), adquire um tom menos administrativo e mais pastoral de cuidado afetuoso do rebanho.

Mas foi no campo da liturgia que as mudanças foram mais notórias. Isso porque as discussões de cunho mais estritamente teológicas tendia a circunscrever-se aos gabinetes clericais e eclesiásticos e ao âmbito acadêmico. Enquanto a teologia vivenciada de forma celebrativa, nas liturgias, podia ser apropriada “pelas crianças, os jovens, os anciãos, as camponesas, os artesãos, as donas de casa” (SOLO POR TU GRACIA, 2017, p. 5), enfim, pelo povo de modo geral.

Enquanto a Igreja medieval, desde antes de Constantino, vinha se deixando afetar pelo paganismo, com Lutero, tudo passou por uma triagem. Segundo ele, o que a Bíblia não proíbe é permitido. Isso implica em que qualquer coisa que esteja em flagrante contradição com as Escrituras, deve ser evitado.

Calvinistas e zwinglianos eram um pouco mais radicais, pois entendiam que o que não está na Bíblia deve ser eliminado. 

Com base nessas premissas, uma forte onda iconoclasta irrompeu. Obras de arte preciosas foram destruídas em nome da pureza doutrinária. Até os imponentes órgãos de tubos foram arrancados de algumas igrejas, com o argumento de que não estavam citados na bíblia.

A hinologia (teologia dos hinos) também foi grandemente afetada. Na Igreja romana, somente o clero cantava na liturgia. E cantava-se estritamente a “Palavra”, as Escrituras Sagradas (os salmos, os hinos bíblicos e os chamados cânticos evangélicos). O cantochão/gregoriano era o único estilo musical autorizado. Influenciado por João Huss, que estimulava o cântico congregacional, Lutero aderiu à ideia de que a música não é propriedade dos profissionais da religião, mas de toda a congregação. Também inovou no estilo musical e introduziu o chamado “canto coral”. Os reformadores preservaram a hinologia antiga e acrescentaram novos com melodia de gosto popular.

O metodismo e a Reforma

A Reforma de Lutero se deu século XVI (31 de outubro de 1517) enquanto o Metodismo só surgiria no século XVIII, duzentos anos depois. Portanto, não podemos incluir a Igreja Metodista como parte direta do movimento da Reforma. 

Mesmo porque, ela não derivou de uma ruptura com a Igreja Romana, como foi o caso das Igrejas Luteranas e Reformadas, mas nasceu dentro da Igreja Anglicana.

A Igreja Anglicana era, digamos assim, a versão inglesa da Igreja Católico Romana. Sua ruptura com a Igreja de Roma se deu mais por querelas políticas ligadas à liderança do cristianismo inglês, em meados do século XVI, quando reinava Henrique VIII. 

Nessas disputas pelo controle político da igreja e dos países que compunham o que passou a ser o Reino Unido, alternavam-se, de maneira ambígua, posições católicas e reformadas.

Por fim, a Igreja da Inglaterra estabeleceu-se de maneira autônoma em relação à Igreja de Roma, adotando um misto de catolicismo (especialmente na sua estrutura eclesiásticas e na liturgia) e de protestantismo (adotando uma teologia calvinista). Também adotou práticas distintas da romana em quesitos como o casamento dos sacerdotes e a veneração de imagens.

Ora, o metodismo surge dentro dessa igreja que é a versão inglesa da Igreja Católica. Pelo que se sabe, liturgicamente, se manteve leal à tradição anglicana. Para se constatar isso, basta ver o Livro de Oração que Wesley escreveu para orientar o culto entre os metodistas que floresciam na América: basicamente uma versão simplificada do Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana.

Os patronos do metodismo, especialmente John e Charles Wesley, nunca romperam com a Igreja da Inglaterra, conquanto divergissem em vários aspectos, inclusive teologicamente, pois adotavam uma versão do arminianismo, em lugar de abraçar o calvinismo.

As reformas metodistas

Ora, o que o povo metodista pretendia, não era romper com a igreja, mas santificá-la e restaurá-la segundo as raízes evangélicas. Esse ideal resultou em significativas e profundas “reformas” no cristianismo inglês.

Enquanto a igreja de então havia se convertido em um domínio a serviço da elite, o metodismo queria devolver a igreja e o Evangelho para o povo, que era composto na sua maioria de gente simples, pobre, mulheres e crianças.

Por isso adotou um estilo de pregação direto, e passou a organizar o povo em pequenas cooperativas de ajuda mútua e de apoio espiritual.

A tensão entre anglo-catolicismo e protestantismo que fazia a Igreja da Inglaterra se debater, deu ensejo à síntese metodista em relação à fé-e-obras. 

John Wesley formulou sua teologia a respeito da tensão dialética entre fé e obras (misericordiae et pietatis), apropriando-se especialmente das discussões ocorridas em meados dos séculos XI e XII. 

A esse Respeito, Renders (2014, p. 356) nos aponta que, nessa ocasião (séculos XI e XII), falava-se das

“sete obras físicas de misericórdia, das sete obras espirituais da misericórdia e das seis obras de piedade”.

E esclarece: 

Obras de misericórdia físicas:1. Alimentar os famintos. 2. Dar de beber a quem tem sede. 3. Vestir os nus. 4. Hospitalidade 5. Visitar os doentes. 6. Visitar os presos. 7. Sepultar os mortos.

Obras de misericórdia espirituais:1. Instruir os ignorantes. 2. Consolar os com dúvidas. 3. Advertir os pecadores 4. Suportar injustiças com paciência. 5. Perdoar as ofensas de bom grado. 6. Confortar os aflitos. 7. Orar pelos vivos e os mortos [lembrando que essa era a prática nos séculos XI e XII].

Obras de piedade:1. Oração 2. Consultar as Escrituras 3. Santa Ceia 4. Jejum 5. Comunhão com outros cristãos e outras cristãs 6. Estilo de vida saudável. (RENDERS, 2014, p. 365)

Naturalmente Wesley não estava advogando a salvação pelas obras, mas reafirmando o óbvio, como se lê nas Escrituras, que o amor a Deus está condicionado ao amor pelo próximo: 

Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odiar o seu irmão, esse é mentiroso. Pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. (1Jo 4.20)

Nesse sentido, podemos dizer que a teologia metodista caminha mais na direção de uma síntese das teologias católica e protestante do que no sentido da polarização excludente entre fé e obras, que marcou grande parte da discussão no período do pós-Reforma.

Em termos de Salvação, Wesley reafirmou a justificação pela fé (isto é, não somos justos em nós mesmos, mas justificados por Deus em Cristo), e enfatizou fortemente o processo de santificação contínua e permanente do povo de Deus. 

Nesse processo de santificação continuada, ou da busca pela perfeição cristã, o cristãos deve priorizar especialmente a participação constante nos Meios de Graça: 

Os principais desses meios são a oração, seja secreta ou juntamente com a congregação; o estudo das Escrituras (que compreende a leitura, audição e meditação delas); e a participação da Ceia do Senhor, comendo o pão e bebendo o vinho em memória de Cristo: cremos que tais meios foram ordenados por Deus, como canais ordinários pelos quais Ele comunica sua graça à alma dos homens. (WESLEY, Sermão 16: Os meios de Graça)

Os metodistas também tiveram um papel muito importante na quebra do paradigma do templo. A prática corrente era considerar que a pregação do Evangelho só poderia ser realizada dentro de um templo consagrado. Para os metodistas, contudo, qualquer lugar poderia ser erigido como púlpito ou plataforma para a pregação do Evangelho, mesmo que ao ar livre: a praça, a porta de uma fábrica ou mina de carvão, um cemitério, o quintal de uma casa simples, um prado…

Vários outros paradigmas e tabus eclesiásticos foram quebrados pelos metodistas, entre eles, merece destaque a pregação laica e, especialmente, a realizada por mulheres.

Não devemos nos esquecer do importante deslocamento quanto ao público alvo da pregação metodista: antes, as prédicas eram pensadas para servir à nobreza e às classes dominantes, mas agora elas se destinavam a resgatar as crianças, os condenados à morte, os operários, os trabalhadores das minas, os pobres, os indigentes…

Também na hinologia, os metodistas promoveram profundas reformas. Além de adotarem o cântico congregacional, abriram as possibilidades para o cântico evangelístico e até mesmo para ao cântico autoral, isto é, aqueles cujo conteúdo contem o testemunho de fé de um indivíduo ou de uma comunidade.

A educação também nunca mais foi a mesma, na Inglaterra e nos países onde o metodismo se estabeleceu. A alfabetização de crianças pobres nas Escolas dominicais, por exemplo, quebrou o tabu do “domingo”, rendeu muita recriminação por parte dos puritanos de então. 

A atuação na promoção dos direitos dos encarcerados, não só levando a eles a pregação da Palavra, mas zelando por sua saúde, higienizando as celas, acompanhando os condenados à morte até o momento da sua execução, para que não perdessem de vista a salvação e o amor de Deus… tudo isso revolucionou, mais que reformou, o sistema penitenciário inglês.

A capacidade tipicamente metodista de organizar o povo também se refletiu na classe operária. Sabe-se que o primeiro sindicado de trabalhadores da Inglaterra foi fruto do trabalho de um metodista.

Wesley pretendia

“reformar a nação, particularmente a igreja,
e espalhar Santidade Bíblica em toda nação”
(WESLEY, Minutes…, p. 845).

A história está se encarregando de mostrar quão profundas e grande reformas John Wesley e o povo metodista realizaram até o presente. Podemos afirmar, portanto, sem hesitar, que Wesley foi um Reformador, sim, um dos maiores.

Compromisso com a unidade da Igreja

Há ainda outro aspecto que, se omitido, não faria jus ao legado metodista: o compromisso com a unidade da Igreja.

Especialmente nos inícios do metodismo, o divisionismo era evitado a todo custo. É notável constatar como, a despeito de toda perseguição e hostilização, sofridas pelos primeiros metodistas, esses se recusassem a romper com a Igreja da Inglaterra.

Essa ruptura só se daria nas gerações seguintes e depois da morte dos irmãos Wesley. Constatamos aqui o fenômeno que, vez por outro se verifica aqui e acolá, que faz com que alguns metodistas queiram ser mais wesleyanos que os Wesley. 

Aquela ruptura certamente teria entristecido muitíssimo os patronos do metodismo. 

Por essa razão, eu não poderia concluir este artigo sem fazer, ainda que brevemente, menção ao documento Mission and ministry in covenant(Missão e ministério em aliança). Como resultado de um longo processo de diálogo, iniciado em 2003, entre as duas igrejas, a igreja da Inglaterra e a Igreja Metodista, o documento propõe o estreitamento das relações eclesiais entre as duas igrejas. Esse acordo prevê, inclusive, o reconhecimento mútuo das ordens ministeriais. Uma vez aprovado, sacerdotes anglicanos e pastores metodistas poderão assumir paróquias de ambas as igrejas, podendo inclusive ser eleitos bispos da Igreja da Inglaterra (a Igreja Metodista na Inglaterra não tem bispos). Essa proposta foi formalmente publicada em junho de 2017. O processo de negociação deverá ser concluído até 2019.

Depois de 200 anos e separação, vemos agora uma retomada do caminho da parceria e cooperação entre metodistas e anglicanos. Nossos patronos certamente se alegrariam com o renascimento desse espírito de unidade.

Concluindo…

Para terminar, quero chamar a atenção para a seguinte síntese:

Lutero enfatizava a Teologia Graça e Calvino, a Teologia da Soberania de Deus. Wesley, contudo, baseado no maior e único mandamento, enfatizava a Teologia do Amor.

A teologia luterana mudou nossa compreensão da nossa relação com Deus, por meio da Graça. A teologia calvinista mudou a nossa compreensão da Relação de Deus para conosco, por meio da noção de Soberania. Wesley transformou a compreensão da nossa relação com Deus e com próximo por meio do amor.

No início fizemos alusão ao fato de que a Teologia da Graça ainda não foi assimilada por muitos que se dizem evangélicos e protestantes. Que dizer então quanto à Teologia do Amor? Esse amor sem idade, sem limites, a Deus, ao próximo e até ao inimigo? 

Dessa teologia, a Teologia do Amor, ainda estamos muito mais distantes. 

Os metodistas, se valorizassem mais suas próprias origens, em vez de correrem atrás de todo vento de pseudo-doutrina, talvez pudessem voltar a contribuir de maneira mais relevante para promover uma verdadeira Reforma e por que não dizer a verdadeira Revolução do Amor.

Referências

DREHER, Martin. História do povo de Jesus:uma leitura latino-americana. São Leopoldo: Sinodal, 2013. 520 p.

OBERMANS, Gerardo; RAMOS, Luiz (editores). Solo por tu Gracia:recursos celebativos para acompañar la commemoración de los 500 años de la Reforma. Campinas, Texto & Textura, 2016. 121 p.

RENDERS, Helmut. As obras de misericórdia e piedade em john wesley e no metodismo contemporâneo: base para uma teologia pública? In Caminhos. Goiânia, v. 12, n. 2, p. 355-369, jul./dez. 2014.

WESLEY, John. ‘Minutes of Several Conversations between the Reverend Mr. John and Charles Wesley and Others’ in Wesley 2011, p. 845. 

WESLEY, John. Sermão 16: Os meios de Graça. Disponível em http://www.metodista.org.br/content/interfaces/cms/userfiles/files/documentos-oficiais/SERMAO_16_OS_MEIOS_DE_GRACA.pdf, consultado em 18/10.2018.

Mission and Ministry in Covenant: A Reader’s Guide. The Church of England/The Methodist Church, 2017. Disponível em https://www.methodist.org.uk/media/8523/mission-and-ministry-in-covenant-a-readers-guide.pdf. Consulta em 18/10/2018.

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